segunda-feira, 12 de abril de 2010

Todas as mulheres são bruxas



Bom dia leitores!
Começarei esta semana uma sessão Isabel Vasconcellos. Estarei postando textos dela e com fotografias da loja Adalgisa Duque de Belo Horizonte.
Espero que gostem e que cada texto postado vocês possam ter orgulho de terem nascido "bruxas", afinal, mulheres sempre tiveram o seu papel na sociedade, mesmo que isso tenha demorado séculos para ter sido aceito, e ainda estamos num processo de aceitação, mas uma batalha já foi vencida.

Visitem o perfil da loja para conhecer os produtos.

Todas as mulheres são bruxas
Por Isabel Vasconcellos
Introdução:
Bruxas, aquelas mulheres velhas, feias, narigudas, vestidas de preto, nariz pontudo, verruga, caldeirão e vassoura, só existem nas lendas e nas histórias infantis.
A imagem clássica da bruxa nasceu da repressão à sabedoria e ao poder das nossas antepassadas, há coisa de quase mil anos. Bruxas nunca existiram. Existiram, sim, milhares e milhares de sábias que foram queimadas nas fogueiras da Inquisição da Igreja Católica por cerca de seis séculos.
Quando os católicos começaram a dominar a Europa, na Idade Média, era preciso enquadrar as mulheres no modelo feminino deles. E a maioria não se enquadrava. As mulheres celtas, em particular. Eram elas as médicas de então. Eram elas as grandes conciliadoras, as mediadoras de conflitos. Sabiam lidar com as ervas. Sabiam ler os ciclos e as mensagens da natureza. Sabiam dominar e interpretar sonhos e a sua própria intuição. Conheciam a linguagem das plantas e dos caldeirões, dos chás, temperos, remédios, poções. Eram sábias, à sua maneira. E podiam dialogar com as estrelas.
Toda a tradição desses conhecimentos ( na verdade, banais) foi vista pela Igreja como algo demoníaco, como algo que não se enquadrava no machismo da religião católica, na mentalidade dominadora dos homens que pretendiam governar os povos, o mundo.
Homens são da guerra. São o sol. São do poder pela força, pela dominação dos mais fracos, pela intolerância cega de quem se julga possuidor das verdades. Homens são lineares: para frente e para o alto, derrubando o que estiver no caminho! Possuindo, dominando, com a força da testosterona e o brilho ofuscante da luz solar.
Mulheres são cíclicas como a lua. Mulheres são da paz, da conciliação, do amor materno, da tolerância, da compreensão. Mulheres têm fases: quinze dias de estrogênicas, brilhantes, sedutoras. Outros quinze, progesterônicas, maternais, recolhidas, acolhedoras. Mulheres são sinuosas: em vez de derrubar e destruir os obstáculos, contorná-los, dribá-los e seguir em frente, com a suavidade do luar.
Mulheres são mães, por isso a natureza deu-lhes uma coisa a qual chamamos de sexto sentido: nossa feroz, nossa imbatível e muito pouco falível (quase infalível) intuição.
Mulheres sábias, em nome da repressão dos antigos católicos, foram rotuladas de bruxas, feiticeiras, demoníacas. Foram queimadas nas fogueiras da Inquisição por mais se seiscentos anos.
Muito da tradição, da sabedoria, da bondade, do domínio da intuição, muito, muito mesmo do conhecimento feminino se perdeu, espalhou-se no ar, nas cinzas das fogueiras da matança.
Nas sociedades de então, as mulheres foram perdendo o poder. Foram se calando. Ficaram submissas. Suas qualidades de mulher foram reduzidas aos rótulos de sensibilidade exacerbada, fragilidade, dependência, raciocínio inferior. E, finalmente, elas se tornaram cidadãs de segunda classe, confinadas ao universo do lar, sem papel social maior do que a maternidade.
Foi apenas no final do século XVIII que algumas mulheres começaram a se rebelar quanto à sua condição social.
Cem anos depois, as européias e as americanas começaram a se organizar para lutar em prol dos seus direitos de cidadania. Queriam estudar, votar, opinar. Queriam voltar a ter voz no mundo.
Surgiram as sufragistas, as feministas e surgiram, na segunda metade do século XX, as primeiras mulheres livres na nossa sociedade.
Se hoje aprendemos a ler e a escrever, se hoje podemos votar, trabalhar, exercer nosso direito ao prazer e à contracepção, se hoje podemos ter nosso próprio dinheiro, se hoje já não somos tuteladas e consideradas inferiores e incapazes, tudo isso devemos às mulheres que, antes de nós, lutaram, morreram, sofreram, foram encarceradas e ridicularizadas porque queriam tudo isso (e mais) que temos hoje.
Mas ainda não é tudo.
Quando, nas décadas de 1970 e 1980, entramos na vida produtivas, assumimos, quase sem querer, o modelo masculino de poder, de competição, de produção. Muitas executivas e políticas dessas décadas se transformaram em homens de tailleur e salto alto.
Era apenas mais uma etapa de um processo de libertação feminina que ainda está longe de terminar.
Hoje, no século XXI, as mulheres precisam resgatar a bruxa dentro delas.
Hoje é preciso lembrar que podemos ter os mesmos direitos que os homens na sociedade mas que somos muito, muito diferentes deles.
Somos a outra metade da vida. A metade que foi brindada pela natureza com a capacidade de gerar, de ser mãe, e, por isso mesmo, também com todas as capacidades do sexto sentido.
É essa capacidade, a do sexto sentido, que ainda está latente e adormecida dentro de nós. É o nosso lado bruxa, cruel e historicamente reprimido num mundo de guerra, num mundo onde o poder era apenas masculino e, portanto, desequilibrado.
O mundo é feito de mulheres e de homens. Para mulheres e para homens.
Depois de milênios sendo governado e dominado apenas por um lado, o masculino, não é de admirar que falte, nas relações humanas, exatamente o que caracteriza a magia feminina: o amor, a compreensão, a tolerância, a capacidade de conciliação.
E esses dons femininos nascem na intuição. Nascem nos cérebros femininos que os homens tanto rotularam de "pouco racionais".
Muito mais intuição do que razão e a razão que nasce da intuição - assim é a cabeça feminina. A sabedoria popular sabe bem que o coração tem razões que a razão desconhece.
O mundo só encontrará o equilíbrio quando o poder estiver também equilibrado entre a razão e o coração. Entre a cabeça da mulher e a cabeça do homem. Entre o estrogênio e a testosterona.
A terra precisa de mais Ladies Di e menos Margarets Tatcher.
Nosso planeta precisa de mulheres dividindo com os homens o poder, as decisões, o diálogo.
Não mais daquelas mulheres que se masculinizaram para conquistar um lugar ao sol no mundo produtivo, na vida política, mas sim de mulheres que estejam nas empresas, nas assembléias, nas igrejas, na política, na vida artística, com a sua alma feminina por inteiro. Ou seja, resgatadas a capacidade de seu sexto sentido, seu instinto materno, sua intuição (coisas que, para os homens, parecem mágicas, mas que para nós são tão naturais como respirar).
É o momento de resgatar a bruxa que perdemos ao longo do caminho e colocá-la a serviço da humanidade.
Redescobrir a feminilidade que o poder masculino tentou destruir é a proposta deste livro.

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